
Por Celso Sabadin, de Curitiba.
Saio do Festival Internacional de Cinema em Super 8 de Curitiba com a agradável – e põe agradável nisso – sensação de ter participado de um evento realmente de Cinema. Nos bate papos, nos almoços e jantares, nos debates dos realizadores, falava-se de como fazer Cinema, de como ver e sentir Cinema. Juro de pés juntos que, durante todo o evento, não ouvi uma única vez a palavra “Mercado”. Após cerca de 30 anos cobrindo festivais, isso foi absolutamente renovador. No Festival Internacional de Cinema em Super 8 de Curitiba pouco ou quase nada se falou de mercado, distribuição, Ancine, editais, políticas públicas ou privadas. Como dizia Glauber, aqui “o assunto é Cinema, Cinema, Cinema”. Mesmo porque quem faz Super-8 nem vai se preocupar com um mercado que não existe mesmo. Quem faz Super-8 faz arte.
O despojamento da bitola é tão fascinante que o Festival dedica uma de suas sessões para filmes domésticos. É o chamado “Dia do Filme Caseiro” (Home Movie Day), onde o público pode trazer seus rolinhos de casa para serem projetados em sessão especial comentada. Sem inscrição prévia nem nada, dentro de um espírito de improvisação apaixonantemente anos 70.
E para quem ainda acha que o Super-8 é um formato em extinção, uma notícia das mais interessantes: segundo Ivan Cordeiro, que além de realizador também é representante no Brasil da PRO8, empresa norte-americana de serviços laboratoriais em Super-8, a Kodak anunciou, já de maneira oficial, a volta da fabricação de seu filme Ektachrome nesta bitola. A empresa também está colocando no mercado um novo modelo de filmadora Super-8, o que deverá ocasionar um certo “ressurgimento” do formato, principalmente junto a cineastas interessados mais em Cinema que em mercado.
Premiações
Este ano, o Festival Internacional de Cinema em Super 8 de Curitiba teve a exibição de 74 filmes vindos de 8 países, e três mostras paralelas, explorando trabalhos que transitam da animação ao documentário e ao experimental.
Após três dias de intensa programação, os premiados do evento foram os seguintes:
Menção Honrosa – Mar Oculto, de Heitor Menezes, do Brasil (RJ) “Por sua economia, precisão, arte e mensagem”.
Super Prêmio Técnico – Pífies, de Ignacio Tamarit, da Argentina “Pelo apuro na montagem, realizada originalmente de forma linear, ou seja, no próprio filme e pelo colírio métrico e visual”.
Super Prêmio Artístico – Libertador, de Úrsula Riesemberg, do Brasil (PR), “por seu lirismo, leveza e o diálogo entre a natureza, o tempo e o vazio”.
Super Tomada Única – O Corte, de Alberto Eisenring, do Brasil (PR) “pela ousadia, domínio técnico, uso justificável do Super 8 em sua concepção e sua perseguição bem-humorada à metalinguagem”.
Super Prêmio Surpresa – Irmãs Wagner, do Brasil (PR) “pelo conjunto conceitual e impactante da obra e pelo primor técnico na execução, além do importante e impecável trabalho de restauro dos filmes”.
Super Filme do Público – Lembranza, de Al Díaz, da Espanha 7.
Super Filme do Festival – Ressuscita-me, do Coletivo Atos da Mooca, do Brasil (SP), “pelo primor tanto técnico, como artístico, que utiliza das mais variadas referências cinematográficas vanguardistas à serviço de um vislumbre em Super 8”.
Criado em 2005, o Festival Internacional de Cinema em Super 8 de Curitiba cresceu rapidamente impulsionado pela paixão que ainda permanece pelo filme analógico. Ao longo dos anos o Curta 8 conseguiu parcerias fora do país, até se consolidar como evento mundial do gênero em 2008, com o patrocínio da CAIXA. Atualmente em sua décima terceira edição, o evento é uma das maiores iniciativas já realizadas no Brasil, e um dos poucos festivais dedicados ao culto da bitola Super 8 nas Américas.
O Curta 8 é coordenado por Antonio Carlos Domingues, tendo curadoria de Fábio Allon nas mostras competitivas. A produção é de Adriano Esturilho, da Processo Multiartes. A programação completa do evento estará disponível em www.curta8.com.br.
Celso Sabadin viajou a Curitiba a convite da organização do evento.