Por Celso Sabadin.
Coincidentemente ou não, nesta mesma semana em que são abertas as inscrições para a edição 2027 do Festival ´”É Tudo Verdade”, há várias e boas opções de documentários para diversos tipos de públicos. Anote:
ANISTIA 79
Nos cinemas, já está em sua segunda semana em cartaz (feito raro para o gênero) o necessário “Anistia 79”, premiado em Tiradentes como Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Em um verdadeiro trabalho de arqueologia cinematográfica, “Anistia 9” descobre e exibe imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Na época em que a discussão pelas liberdades democráticas era violentamente barrada pela ditadura brasileira, vários organismos internacionais sediados em diversas partes do mundo apoiavam nosso país e promoviam debates a respeito, proporcionando ao tema a necessária visibilidade impossível de ser conseguida por aqui.
A partir do registro documental desta conferência em Roma, “Anistia 9” reúne pessoas que participaram do evento para revisitar, décadas depois, aquele momento decisivo da luta contra a truculência. Entre elas, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Hamilton Lopes dos Santos, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal e Denise Crispim.
Encontradas pela diretora Anita Leandro no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, as imagens foram registradas pelo exilado brasileiro Hamilton Lopes dos Santos, que acompanhou durante três dias a conferência realizada no Senado italiano. O material permaneceu guardado por quase meio século até ser recuperado por Anita.
“Não se trata de um filme temático sobre anistia, mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”, explica a diretora.
Quem dirige “Anistia 79”
Anita Leandro é documentarista, pesquisadora e professora de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa sobre os acervos fotográficos das agências de repressão da ditadura brasileira deu origem ao documentário Retratos de Identificação (2014), prêmio do júri oficial do CachoeiraDoc e Prêmio Arcoiris do Festival del Cinema Latino Americano de Trieste, também selecionado no FIDMarseille, États Généraux du Film Documentaire de Lussas, Forumdoc.BH, Mostra de Cinema de Tiradentes, CineOP e EDOC de Quito, entre outros festivais nacionais e internacionais. Desde 2006, ela desenvolve um trabalho de registro de narrações de trechos da obra de João Guimarães Rosa, no sertão mineiro. Foi coordenadora do mestrado profissional “Realização de Documentários e Valorização dos Arquivos”, da Universidade Bordeaux Montaigne, na França. Sua filmografia abrange: Retratos de Identificação (2014), longa-metragem documentário Riobaldo e Diadorim (2017), média-metragem documentário híbrido Dão-Lalalão (2022), média-metragem documentário híbrido.
GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE
Vencedor do prêmio de Melhor Documentário no recém-terminado Festival de Gramado, “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” se insere no mais que bem vindo acervo de documentários musicais que já se tornou – felizmente – uma marcante tendência da nossa produção audiovisual.
Com direção de Susanna Lira e roteiro e pesquisa de Rodrigo Alzuguir, “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” chega aos nossos cinemas também com o aval do Los Angeles Brazilian Film Festival, onde conquistou o prêmio Best Narrative Documentary. E não é para menos: o longa mergulha na obra e na personalidade do seu biografado com rara sensibilidade, extraindo de suas entrevistas, seus olhares e canções uma verdade que transborda na tela, ao mesmo tempo em que compõe um painel da própria historiografia brasileira na qual Gonzaguinha se insere de maneira imponente. O longa se configura em uma viagem sensorial e afetiva que perpassa e repassa a indignação que todas aquelas pessoas minimamente informadas sentiram na pele nos nossos terríveis anos de chumbo. Impossível não se emocionar com o discurso que o artista profere poucos minutos após as explosões do famoso show no Riocentro, marco histórico do início da derrubada do militarismo no Brasil.
Na reconstituição da emblemática entrevista concedida ao jornal O Pasquim, Gonzaguinha é brilhantemente interpretado pelo ator André Dale, o mesmo que incorporou Ney Matogrosso em “Homem com H”. Destaque ainda para a nunca menos que brilhante montagem de Ítalo Rocha, que faz pulsar o filme da primeira à última cena.
Quem dirige “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”.
Susanna Lira é cineasta, pós-graduada em Filosofia, Direito Internacional e Direitos Humanos, especializada em biopolítica criminal. É mestre em Psicanálise. Dirigiu mais de 21 longas-metragens e dezenas de curtas e séries, acumulando mais de 120 prêmios em festivais no Brasil e no exterior. Entre seus trabalhos de maior destaque estão: “Apenas 3 Meninas” (2026), “#salverosa” (2025), “Fernanda Young – Foge-me ao Controle” (2024), “Quando Elas Se Movimentam” (2024), “Nada Sobre Meu Pai” (2023), Jessie e Colombo” (Globoplay, 2023), “Não Foi Minha Culpa” (ficção, Star Plus, 2022), “Adriano Imperador” (Paramount Plus, 2022), “Casão, Num Jogo Sem Regras” (Globoplay, 2022), “A Mãe de Todas as Lutas” (2021), “Torre das Donzelas” (2018), “Mussum, Um Filme do Cacildis” (2018). Ao longo de 20 anos de carreira trabalhou para os principais veículos de comunicação. Possui uma longa e reconhecida carreira como diretora, tendo sido inclusive homenageada em vários países: no Festival FEMCINE, no Chile em 2019; no Festival Tenemos que ver no Uruguai em 2018 e no Festival de Cine Independente de Mar del Plata 2016 na Argentina, com a mostra “Susanna Lira – Hasta el limite”. Em 2025, Susanna Lira estreou seu primeiro filme de ficção, “#salverosa”, no Festival do Rio, sendo premiado nas categorias de Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Figurino e Melhor Atriz para Klara Castanho.
NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS
Vencedor do prêmio de Melhor Filme do Júri Popular no Festival de Brasília, “Não Existe Almoço Grátis”, de Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, estreia nos cinemas dia 3 de setembro. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, chega aos cinemas também em 3 de setembro o documentário “Não Existe Almoço Grátis”, abordando a luta diária contra a fome e a importância da organização comunitária no Brasil.
Tudo se passa em Brasília, sob o ponto de vista de três mulheres negras – Bizza, Jurailde e Socorro – que lideram uma Cozinha Solidária na favela Sol Nascente, a apenas 30 km do centro da capital. A poucos dias da posse de Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato, elas estão encarregadas de cozinhar para as centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à tão aguardada cerimônia no dia 1º de janeiro.
Bizza sonha em construir sua casa e abrir seu próprio negócio no lote que conquistou através da luta no MTST. Jurailde vincula sua conexão com a terra à sua ancestralidade indígena e seu passado de trabalho infantil. E Socorro descobre o orgulho de si ao formar sua própria família depois de ter sido abandonada pelo pai na infância.
“Costurando relatos íntimos ao registro vivo e em movimento da força da organização coletiva, o filme é um manifesto contra as máximas neoliberais da meritocracia, do individualismo e do lucro. Sua linguagem visual e sonora marca o contraste da desigualdade social no Distrito Federal, fazendo de Brasília uma personagem símbolo de injustiças a serem superadas. É nesta cidade partida que Socorro, Jurailde e Bizza se conhecem e se tornam coordenadoras de uma das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, distribuindo almoços grátis diariamente”, refletem os diretores Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel.
Em meio a ameaças de golpe e crescente violência política, “Não Existe Almoço Grátis” acompanha esta saga de preparação logística e culinária massiva no contexto da posse presidencial mais paradigmática desde a redemocratização. O longa se desenvolve no contexto dos profundos danos ocorridos durante a péssima gestão federal da pandemia de Covid-19. A falta de políticas públicas para enfrentar a situação de fome da época levou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) a organizar dezenas de Cozinhas Solidárias, distribuindo almoços grátis por todo o país.
Antes de sua chegada às salas de cinema, “Não Existe Almoço Grátis” construiu uma sólida e premiada trajetória pelos principais festivais do país. Sua caminhada começou no 27º ForumdocBH, integrando a Mostra Contemporânea Brasileira. Em seguida, na 56ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário conquistou o público e a crítica na Mostra Brasília, onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial. O apelo e o reconhecimento do público voltaram a se consagrar na 13ª Mostra Ecofalante de Cinema, onde o longa venceu novamente o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular. A obra seguiu em exibição pela Mostra Foco do 13º Olhar de Cinema e integrou a Competitiva Nacional do 31º Festival de Cinema de Vitória, no qual recebeu mais uma Menção Honrosa do Júri Oficial. Já no 21ª Mostra do Filme Livre, recebeu o Prêmio Destaque.
Quem dirige “Não Existe Almoço Grátis”
Marcos Nepomuceno é diretor, produtor e jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu trabalho investiga a realidade brasileira através do cinema documental, explorando temas como território, memória, identidade, cultura popular, pertencimento comunitário e transformação social. Atuou como primeiro-assistente de direção em produções da TV Globo e do Globoplay, integrando as equipes das novelas “Babilônia” (2015), “Rock Story” (2017) e “Segundo Sol” (2018), além das séries “Desalma” (2020 e 2022) e “Encantados” (2023). Em 2022, fundou a produtora independente Filmes da Terra, dedicada ao desenvolvimento de projetos documentais e narrativas autorais voltadas à diversidade cultural brasileira. Seu primeiro longa-metragem, “Não Existe Almoço Grátis” (2023), codirigido com Pedro Charbel, acompanha lideranças femininas do MTST durante a posse presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Atualmente, finaliza o longa documental “Um Dedo Acima do Chão”, filmado no Cariri cearense durante as eleições presidenciais de 2022, e dirigiu o especial documental “Dominguinho” (TV Globo – 2026), acompanhando a turnê europeia de João Gomes, Mestrinho e Jota.pê. Também dirigiu três temporadas da série “Tributo” (TV Globo – 2024, 2025 e 2026), dedicada a grandes nomes da cultura brasileira.
Pedro Charbel possui mestrado em Sociologia e graduação em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Com ampla atuação em lutas por direitos humanos e justiça no Brasil e no mundo, “Não Existe Almoço Grátis” (2023) é seu primeiro filme, codirigido com Marcos Nepomuceno. Militante do MTST, coordena o projeto Cinema Sem-Teto, que busca democratizar o acesso ao cinema brasileiro nas periferias. Como produtor, roteirista e diretor, está desenvolvendo o documentário “Rota de Mudança” (prêmio de melhor pitching no FomentaCine 2025 do Cine Brasília) e o curta de ficção “No Mar Também Criamos Raízes”, em codireção com Gizele Martins. Em 2023, fundou a produtora Urupê Filmes e, como curador, organizou a Mostra Saúva de Cinema – Transição, Território e Clima, realizada em Belém em 2025. Atualmente, coordena a Aliança Chega de Soja, uma coalizão de movimentos e organizações que tenta frear o avanço da monocultura sobre a Amazônia e o Cerrado. É também militante do PSOL e editor-chefe da Jatobá, a revista socioambiental da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco. Anteriormente, atuou como assessor parlamentar na Câmara dos Deputados e como coordenador latino-americano do Comitê Nacional Palestino de BDS.