Por Celso Sabadin.
Em determinado momento do documentário “Não sei Viver Sem Palavras”, sobre Ignácio de Loyola Brandão, o documentado diz ter tomado uma advertência do editor do jornal em que trabalhava por colocar palavras não ditas na boca de uma entrevistada sua. Loyola afirma que, naquele instante, percebeu que o Jornalismo não lhe bastaria. Ele queria ir além da verdade.
Ir além da verdade; ficcionalizar: o conceito compreendido por Loyola permeia também todo este documentário feito sobre ele, que se permite, por exemplo, a ilustrar com cenas da explosão do dirigível alemão Hindenburg o instante da implantação da ditadura de 1964. Ou uma erupção vulcânica para ilustrar uma internação hospitalar. Puras licenças poéticas das mais bem-vindas, principalmente porque já se abandonou há muito tempo a ideia de que o filme documental é a expressão da verdade. A verdade de quem, cara pálida?
Com uma edição dinâmica, muita informação e excelente pesquisa de arquivo, “Não sei Viver Sem Palavras” mergulha no universo deste que é um dos principais nomes da literatura brasileira, Ignácio de Loyola Brandão. Aqui, ele é desvendado com carinho, perspicácia e curiosidade pelas lentes de seu próprio filho, o fotógrafo e cineasta André Brandão. Filho, aliás, que realiza o sonho confesso do pai, qual seja, dirigir um filme.
O filme nasceu na pandemia, quando, vivendo novamente com seu pai, André começou a filmar despretensiosamente o cotidiano deles. Depois, percebeu que desse material poderia surgir um documentário. “O filme é muito caseiro, feito a poucas mãos. Fizemos oito entrevistas de duas a três horas cada, principalmente na casa dele, mas também no bairro Praça Roosevelt, onde morou por dez anos quando chegou em São Paulo, na biblioteca municipal e na estação de trem de Araraquara – lugares importantes na história dele”, resume o diretor.
Usando e abusando de um ótimo timming, o documentário chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira, 30 de julho, uma semana antes do aniversário de 90 anos de Ignácio. A produção está em cartaz em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ). O longa também estreia em Curitiba (PR), em 6 de agosto, e na terra natal do autor, Araraquara (SP), a partir do dia 13.
Quem dirige
Fotógrafo desde 2000, André Beltrão participou de diversas exposições e colaborou com as principais revistas e agências de publicidade do país. Desde 2015, é diretor e produtor de filmes, com foco em conteúdos documentais e produções para empresas e organizações. Dirigiu a série documental ‘Fronteiras do Pensamento’ – com pensadores como Werner Herzog, Graça Machel e outros. Atualmente desenvolve as séries ‘HC’ – doc-reality que acompanha o tratamento de casos graves no HC em São Paulo, – e ‘Verdade Possível’ – sobre as origens da verdade e seu derretimento.