“NÃO HAVERÁ MAIS HISTÓRIA SEM NÓS”: A AMAZÔNIA MUITO ALÉM DA FLORESTA.  

Por Celso Sabadin.

Confesso que não fiquei nem um pouco animado em saber da estreia nesta quinta-feira, em cinemas, de “mais um documentário sobre a Amazônia”. Obviamente tais documentários são necessários, mas não menos obviamente é cada vez mais urgente sair do lugar comum nesta questão.

Assim, desentusiasmado, movido pela apenas curiosidade e pelo dever profissional, fui assistir a “Não Haverá Mais História Sem Nós”. E fiquei maravilhado! Simplesmente porque “Não Haverá Mais História Sem Nós” está muito longe de ser apenas “mais um documentário sobre a Amazônia”.

Evitando totalmente o lugar comum (tipo imagens espetaculares de queimadas feitas com drone por cineasta que nunca pisou numa floresta de verdade, mas sabe que o tema funciona bem nos editais), “Não Haverá Mais História Sem Nós” dedica boa parte do seu tempo a investigar historicamente as origens dos preconceitos que cercam a região. A fundamentação é das mais importantes: se o brasileiro estudasse História, não estaríamos na draga que estamos hoje.

O longa prova e comprova os mecanismos estruturais e seculares que construíram preconceitos que venderam e vendem ideias como “na Amazônia não tem ninguém”, “a região precisa ser povoada”, ou que os habitantes do lugar necessitam ser tutelados por pessoas supostamente mais preparadas. Tudo isso com extensa documentação e visitas presenciais a instituições supostamente humanitárias da Europa que – também supostamente – deveriam estar cuidando de importantes documentações sobre a Amazônia. Só deveriam.   

“Não Haverá Mais História Sem Nós “ é um manifesto audiovisual contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que  constrói a Amazônia como território disponível à exploração.

O filme parte de uma pergunta: quem conta a história da Amazônia? E o que acontece quando os próprios amazônidas reivindicam o direito de narrar sua história? Eu, por exemplo, vindo do sul-maravilha (lembram do Henfil?), e que já tive o prazer de visitar a Amazônia algumas vezes, nem sabia da existência da palavra “amazônida”. E quando eu coloquei o termo no Google, ele me respondeu: “Você quis dizer amazon”.   

Entre Alemanha e Brasil, em meio ao discurso contemporâneo de preservação ambiental, os diretores Priscilla Brasil e Raphael Uchôa – ambos amazônicos –  revelam como antigas estruturas de poder continuam presentes na maneira como a Amazônia é imaginada, consumida e representada pelo Brasil e pelo mundo.

Estreando em cinemas nesta quinta-feira, 17/09, “Não Haverá Mais História Sem Nós” é uma coprodução entre a produtora paraense Companhia Amazônica de Filmes e a portuguesa Clandestina Filmes.

Quem dirige

Priscilla Brasil: Nascida em Belém, Priscilla dedicou duas décadas à criação de documentários e videoclipes impactantes. Atualmente, é doutoranda em pós-colonialismo na Universidade de Coimbra, onde pesquisa sobre imperialismo e desenvolvimento. Priscilla também coordena a ELA – Escola de Cinema Amazônico, defendendo vozes e narrativas indígenas através do cinema.

Raphael Uchôa: Raphael é Adrian Research Fellow no Darwin College, Universidade de Cambridge, e associado ao Departamento de História e Filosofia da Ciência na mesma instituição. Sua pesquisa aborda o trânsito geopolítico e epistemológico de materiais botânicos e etnográficos da bacia amazônica para o norte global no período moderno. Atualmente, é investigador associado ao projeto ECO no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordena o grupo de pesquisa “Science and its Others: Histories of Ethno-Science” na Universidade de Cambridge. Entre 2018 e 2019, Raphael realizou pós-doutorado no Departamento de História da Ciência e das Ideias da Universidade de Uppsala e ocupou uma posição de pesquisa no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.