
Por Celso Sabadin.
Quem é portador de R.G. de número baixo certamente se lembra de Cicciolina, ex-atriz de filmes adultos que nos anos 80 escandalizou a sociedade conservadora italiana ao lançar-se na política através de estratégias midiáticas nada conservadoras. Dizendo-se representante de um certo Partido do Amor, ela notabilizou-se pela ousadia e foi fenômeno midiático no mundo inteiro, numa época em que nem existiam redes sociais. Cicciolina é uma das personagens centrais de “Diva Futura”, que estreia exclusividade na rede Reserva Cultural (São Paulo e Niterói), nesta quinta, 16/07.
“Diva Futura” não é exatamente sobre a política-pornô, mas sobre a agência que dá nome ao filme, tida como uma das principais alavancas da indústria de entretenimento adulto na Itália. Seu protagonista é Riccardo Schicchi (ótima interpretação de Pietro Castellitto, de “A Odisseia de Eneas”), fotógrafo, produtor, libertário e fundador da agência.
O roteiro de Giulia Louise Steigerwalt, que também dirige o filme, se estrutura sobre dois livros: “Non dite alla mamma che faccio la segretaria”, de Debora Attanasio, e “Oltraggio al pudore”, do próprio Schicci. E talvez seja aí que resida o problema do filme: Debora (interpretada por Barbara Ronchi), foi secretária e amiga de Riccardo, o que se por um lado lhe dá autoridade para escrever sobre a empreitada da agência com os olhos de quem a viveu intensamente por dentro, por outro confere ao protagonista um pouco provável ar de imaculada perfeição, que chega a descolar o personagem da realidade. A princípio, tudo bem, mesmo porque de uma forma geral quem vai ao cinema prefere mesmo a fantasia à realidade. Porém, o roteiro de Steigerwalt não consegue disfarçar nem um pouco a base literária do filme, usando e abusando de narrações polifônicas em off – feitas por vários personagens – quer permeia praticamente todos os 120 minutos da ação.
Tirando essas duas questões, contudo, “Diva Futura” pode proporcionar um mergulho histórico naquela Itália conservadora e machista capitaneada pelo fanfarrão midiático Silvio Berlusconi (praticamente de 1994 a 2011) na qual o erotismo e a exploração da mulher se tornaram espetáculo de massa. Vale o debate.