Por Celso Sabadin
Cor também é linguagem. E isso o diretor francês Cédric Klapisch (o mesmo da trilogia “O Albergue Espanhol”, “Bonecas Russas” e “O Enigma Chinês”) demonstra mais uma vez no seu novo longa, “As Cores do Tempo”.
Talvez o cinéfilo acostumado com a estética mais realista (aquela feita pra fazer com que a gente acredite mesmo em tudo o que está no filme) estranhe um pouco “As Cores do Tempo” e seu visual que muitas vezes lembra um cartão postal antigo. E que também não faz muita questão de disfarçar suas imagens digitais. Mas é assim mesmo: afinal, “As Cores do Tempo” fala de lembranças e de sonhos, dois aspectos da alma humana que a gente pinta com as cores que quiser.
Tudo começa com uma reunião entre dezenas de pessoas que sequer se conhecem, mas que têm em comum uma parente distante cuja propriedade está fechada e abandonada desde o final da Segunda Guerra. O capitalismo selvagem e predatório (com o perdão da redundância) quer derrubar tudo e construir um centro comercial no lugar, mas para isso precisa negociar com a família. Forma-se assim uma comissão de herdeiros composta por quatro pessoas bem diferentes entre si: o apicultor Guy (Vincent Macaigne), o criador de conteúdos digitais Seb (Abraham Wapler), o professor de francês Abdelkrim (Zinedine Soualem) e a executiva Céline (Julia Piaton). Juntos, eles mergulharão nas memórias daquela casa, e entre fotos antigas, quadros e cartas (lembram do que eram cartas?) reconstituirão – ou reinventarão – as emoções de um passado desconhecido, ao mesmo tempo em que questionarão seus próprios presentes.
Alternando-se entre a contemporaneidade e a Paris da virada do século 19, “As Cores do Tempo” torna-se inevitavelmente irregular. Eventualmente serpenteia por uma profusão de personagens do passado, mesclando-os com as decisões dos protagonistas do presente, nem sempre fechando as pontas soltas que o roteiro (do próprio Klapisch, em parceria com o argentino Santiago Amigorena) deixa em aberto. Mas isso não é necessariamente um demérito. Afinal, tendo como tema básico as construções e reconstruções de memórias – e como elas se fundem ao presente – a fragmentação se constitui em elemento dos mais coerentes dentro desse universo.
Talvez o ponto mais frágil de “As Cores do Tempo” seja Suzanne Lindon (filha do astro Vincent Lindon) interpretando Adèle, um papel que – por ser central e fundamental na narrativa – poderia ter sido entregue a uma atriz mais carismática.
Indicado a três prêmios César (um deles para Suzanne), “As Cores do Tempo” estreia em cinemas brasileiros nesta quinta, 30 de julho.