“A NOITE DE ALAÍDE” RESGATA UMA DAS MAIORES VOZES DO BRASIL.  

Por Celso Sabadin.

 Sempre fico com um pé atrás quando um documentário tem cenas de reconstituição dramática. É muito, mas muito raro mesmo esse tipo de cena funcionar bem dentro de um filme documental, mesmo porque geralmente elas não são realizadas por diretores especializados em ficção. E direção de atores sempre é algo muito complicado.

“A Noite de Alaíde” tem, sim, cenas de reconstituição dramática. E muitas! Mas o filme faz uma opção das mais acertadas em relação a elas: ele abraça a estilização, sem medo de ser feliz. Nos momentos em que os personagens reais ganham vida através do elenco que os interpretam (Teka Romualdo, Bárbara Maria, Thayla Valadão, Leonel Costa e Olivia Terra, entre outros) tudo se carrega de cores, contrastes e texturas que rejeitam a realidade, fazendo com que a narrativa se desvencilhe do pesadíssimo fardo da estética clássica realista que tanto engessa a criatividade audiovisual.

Criando então o pacto entre a estética estilizada e o público, a ordem é embarcar nesta deliciosa viagem musical pelos sons e pela época de Alaíde Costa, provavelmente uma das vozes mais subvalorizadas da nossa música, que ganha agora uma oportunidade de redenção através do documentário “A Noite de Alaíde”, que estreia em cinemas nesta quinta, 16/07.

Trata-se do quarto longa de Liliane Mutti, diretora de “Miúcha, A Voz da Bossa Nova” e “Madeleine à Paris”, além de outras obras dedicadas à memória da música brasileira. Comemorando os 70 anos de carreira e 90 anos de vida de Alaíde, o longa  proporciona uma fascinante viagem por aquela época mágica em que a nossa música saía das antigas canções interpretadas por potentes vozeirões e entrava na modernidade através da batida sincopada e das vozes miúdas da Bossa Nova.

É nesse contexto que, pelas mãos de Johnny Alf, Alaíde encontra seu espaço entre monstros como Tom Jobim e Vinícius de Morais, ainda que – segundo a própria cantora – tal espaço fosse bem mais estreito que o conquistado pelas cantoras brancas.

Durante o filme, embriagado por um sem número de canções maravilhosas, evoco Rita Lee e me pergunto, indignado: ai ai meu deus, o que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?

 

Quem dirige

Nascida em Salvador, Liliane Mutti vive entre o Brasil e a França, onde se dedica a criar conteúdo para audiovisual e cinema. Ela é a diretora e roteirista do premiado longa-metragem “Miúcha, a voz da Bossa Nova” (2022). Em 2023, Liliane Mutti circulou com seu segundo longa-metragem: Salut, mes ami.e.s !, filme sobre o rito de passagem da juventude com final da escola, situado no CIEP 449, em Niteroi. Recentemente, realizou residência artística no Centre International les Récollets em Paris, quando se dedicou a seu terceiro longa, Madeleine à Paris.. Atualmente, finaliza a cinebiografia sobre Angela Ro Ro, com lançamento previsto para 2027.