
Que pena! Tudo caminhava bem no 42o. Festival de Cinema de Gramado. Alguns filmes muito bons, outros nem tanto (faz parte), belas homenagens, bons debates, tudo bem. Até a exibição do constrangedor “Esclavo de Dios”, coprodução entre Venezuela e Argentina. Num Festival que historicamente sempre buscou valorizar a linguagem cinematográfica latina e brasileira, e onde nos debates se discutem à exaustão questões relacionadas ao domínio norte-americano sobre o nosso mercado, exibir “Esclavo de Dios” é, no mínimo, constrangedor.
Em primeiro lugar porque trata-se de uma obra que procura deslavadamente imitar a cansativa estética norte-americana dos filmes de espionagem produzidos nos EUA. Sem, porém, demonstrar a mesma competência deles nos quesitos técnicos, o filme acaba se tornando um “sub-Munique”. Em segundo lugar porque a sua “surpresinha” final de roteiro chega a ser vergonhosa, equiparando-o ao que de pior já foi feito nas piores telenovelas espalhadas pela América Latina. Não vou dizer do que se trata (sempre haverá alguém disposto a ver o filme), mas o velho truque da vítima reconhecer seu algoz, 35 anos depois, por causa do relógio que ele usa é, no mínimo, patético.
Mas o pior está por vir: “Esclavo d Dios” se mostra como uma desavergonhada propaganda sionista, onde todos os personagens judeus são heroicos, bondosos e justiceiros, e os árabes são terroristas fanáticos e assassinos sem coração. Um maniqueísmo impensável nos dias de hoje, e totalmente inadequado para ser exibido, principalmente, nestes tempos de dolorosos conflitos na Faixa de Gaza. Uma pisada de bola descomunal da curadoria que marca, pelo menos até o momento, o ponto mais lamentável desta 42a. edição do festival de Gramado.
A trama, ah sim, a trama: nos anos 70, um menino de origem árabe vê sua família ser assassinada por um homem de capuz. E um menino judeu vê o pai morrer num atentado provocado por um homem bomba. Há um corte de tempo e vemos que, enquanto o judeu se tornou um importante membro do Mosab, o serviço secreto de Israel, o pequeno árabe cresceu sendo treinado para se tornar um homem-bomba. O que se vê a seguir é constrangedor. Torna-se compreensível o fato do diretor, cujo nome no filme está creditado como Joel Novoa Schneider, assinar no Imdb e no catálogo do Festival apenas como Joel Novoa.
Assisti “Esclavo de Dios” em sua segunda sessão, na reprise, e presenciei algo que jamais havia visto em meus 25 anos de cobertura aqui deste Festival: nenhum, absolutamente nenhum aplauso ao final da sessão.
Gramado não merecia isso.
Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.