“FIEBRE”: A NECESSÁRIA LATINIDADE PARA O PÚBLICO INFANTO-JUVENIL.

 

Por Celso Sabadin.

Muito se fala – e pouco se faz – sobre a enorme necessidade de formação de plateia para o cinema brasileiro. Minha geração, que foi “alfabetizada” no audiovisual através dos produtos eminentemente estadunidenses exibidos na Sessão da Tarde sabe muito bem como é custoso moldar paladares mais nacionais nas jovens plateias que nos sucederam e nos sucedem.

Tal conceito pode – e deve – ser estendido para toda a América Latina, um continente de uma riqueza cultural extrema e do qual conhecemos tão pouco. Tudo isso para dizer que já está em cartaz em cinemas o importante “Fiebre – um filme para crianças que não têm medo de fogo”. E por que importante? Respondo com outra pergunta: quantos filmes você já viu coproduzidos por Chile, Peru e Brasil? Ou pior: quantos filmes direcionados ao público infanto-juvenil você já viu coproduzidos por Chile, Peru e Brasil?” Deu pra perceber a importância ou preciso desenhar em espanhol?

Roteirizado e dirigido pela chilena Elisa Eliash, “Fiebre” mostra Nino, um garoto que cresceu vendo e experimentando a vida de longe, da janela do seu quarto, por causa de uma estranha condição de seus olhos, que estão sempre muito secos. De forma poética, ele precisa constantemente pingar “lágrimas artificiais” neles. A secura do olhar também provoca em Nino uma febre frequente, que faz com que sua mãe o afaste das brincadeiras com as outras crianças. Até o dia em que o garoto magicamente cai dentro do misterioso universo de um quadro que sua mãe tenta vender, e passa a percorrer um fascinante labirinto de imagens e universos visuais cada vez mais distantes da suposta segurança de seu lar.

Combinando 80% de live action e 20% de animação analógica, Fiebre aposta em uma linguagem visual inventiva para acompanhar o olhar curioso e imaginativo das novas gerações. Ao transitar entre diferentes técnicas, formas de arte e universos fantásticos, o filme transforma a jornada de Nino em uma experiência de descoberta, crescimento e encantamento, sem abrir mão do humor e da emoção.

Como afirma lisa Eliash, “queríamos mostrar que o cinema infantil pode ser tão divertido quanto interessante, e que experimentação, emoção e humor podem caminhar juntos. O filme não tem medo de contar uma história, mas escolhe fazê-lo por meio de formas inusitadas, misturando diferentes linguagens e possibilidades do cinema.”

“Fiebre – um filme para crianças que não têm medo de fogo” chega aos cinemas com a validação de ter sido selecionado em vários eventos importante do setor, como o Festival Internacional de Cinema de Valdivia (Chile), o Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata (Argentina), o Tallinn Black Nights Film Festival (Estônia), o Beijing International Children’s Film Festival (China) e o SIFFCY – Smile International Film Festival for Children and Youth (Índia).

 

Quem dirige

Elisa Eliash (1984) é uma diretora e roteirista chilena. Seu primeiro longa-metragem e trabalho de conclusão de curso, “MAMI TE AMO”, estreou no festival Rencontres du Cinéma de Toulouse e foi exibido em mais de 25 festivais ao redor do mundo, ganhando o prêmio de Melhor Filme no Cine B 2011. Seu segundo longa, “AQUÍ ESTOY, AQUÍ NO”, estreou na Competição Internacional do BAFICI e foi premiado como Melhor Filme, Melhor Roteiro e Prêmio do Público no FICIANT 2013. Ela participou das residências Talent Campus Berlinale 2011 e 3 Puertos (Australab + Distrital) em 2016. Como docente, Elisa ensinou roteiro e direção na Universidade do Chile, na Universidade Católica do Chile, na Escola de Cinema do Chile e na UNIACC. Como roteirista, Elisa co-escreveu os longas “EL BOSQUE DE KARADIMA” (M. Lira), “SIN NORTE” (F. Lavanderos), vencedor de Melhor Filme no Festival de Gramado, Brasil, além de “FLORES ROJAS” (H. Salgado) e “GENTE MALA” (prêmio de Desenvolvimento e Reescrita FFA CNCA), com Che Sandoval, ambos longas em desenvolvimento. Ela também colaborou em diversos projetos teatrais, como o NZ Canal, na produção de videoclipes para pessoas surdas, projeto vencedor do Prêmio Avonni de Inovação em Cultura em 2015. “FIEBRE” é seu terceiro longa-metragem.