ESTREIA “VIVA MARÍLIA”, REGISTRO DE UMA CONTRADIÇÃO EM PRIMEIRA PESSOA.

Por Celso Sabadin.

No documentário “Viva Marília”, que estreia em cinemas nesta quinta, 09/09, a grande atriz brasileira Marília Pera defende, entre outras ideias, que todo artista deve ser revolucionário, à frente do seu tempo. Ela também condena a truculência e a censura que aterrorizaram as artes brasileiras durante a ditadura civil-militar-empresarial de 1964. E afirma ter sido presa duas vezes durante o exercício de sua liberdade artística, por ocasião das peças “Roda Viva” e “Apareceu a Margarida”.

Assim, fica mais difícil compreender como e porquê Marília acabou participando ativamente da campanha eleitoral de Fernando Collor, em 1989, momento da primeira eleição direta para Presidente da República após o término da ditadura. Sua participação na campanha obviamente não está no documentário (e nem seria o caso, pois trata-se de uma homenagem à carreira da atriz, falecida há 10 anos), mas fica notória a contradição intrínseca.

O roteiro de Nelson Motta, um dos ex-maridos de Marília, apoia-se exclusivamente em falas da própria documentada e em riquíssimo material de arquivo. Ninguém além da própria Marília fala de Marília. E nem seria necessário, pois sua arte fala por si, seja no drama, na comédia ou no musical, sempre esbanjando enorme talento. Filmes caseiros realizados pelo pai da biografada, ainda na infância dela, dão ao longa um sabor ainda mais especial de afeto e nostalgia.

A direção de Zelito Viana se mostra eficiente ao evitar quaisquer tipos de penduricalhos, interferências gráficas, maneirismos redundantes e estilizações exageradas na narrativa, abrindo assim totalmente o caminho para o brilho de quem deve brilhar nesta formatação de documentário: a homenageada e seu talento.

Quem dirige

Formado em Engenharia, Zelito Viana escolheu o cinema quando, em 1964, seu colega de turma, Leon Hirszman o convidou para trabalhar como produtor. Em junho de 1965 funda, com um grupo de jovens realizadores, entusiastas do movimento cinemanovista, Produções Cinematográficas Mapa Ltda, que depois atenderia pelo nome de Mapa Filmes do Brasil. Numa recente eleição da revista VEJA, dos dez maiores filmes brasileiros de todos os tempos, a Mapa é responsável por dois deles: “Terra em Transe” de Glauber Rocha e “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho. Além destes filmes, a Mapa produziu mais de duas dezenas de outros em parceira com alguns dos maiores diretores de cinema no Brasil, como Cacá Diegues, Walter Lima Jr., Paulo Cesar Saraceni, Roberto Pires, Julio Bressane, Carlos Alberto Prates Correia, Arnaldo Jabor, Paulo Alberto Monteiro de Barros, Betse de Paula, Joaquim Pedro de Andrade, David Neves, José Joffily e Daniel Filho. Em 1970, Zelito passou para trás das câmeras e iniciou a carreira de diretor, com as comédias “Minha Namorada” (1970) com roteiro próprio e codireção de Armando Costa, e “O Doce Esporte do Sexo” (1971), que teve como protagonista seu irmão, Chico Anysio. O filme de época “Os Condenados” (1975), uma das suas mais importantes experiências como diretor, baseado no romance de Oswald de Andrade, conquistou o Prêmio de Melhor Diretor em Nova Delhi, na Índia, Salva de Prata em Portugal e foi selecionado para a Mostra New Films New Directors, no Festival de Nova York. Atualmente, está finalizando sua nova ficção, Sedução, que tem como protagonista Marcos Palmeira, que estreia como diretor ao lado do pai.